A Quinta Sinfonia de Beethoven e a propaganda da Segunda Guerra Mundial: uma relação inusitada.

Maurício Viegas Pinto
Presidente do IBRAV

29 SET/2021

Como sempre estudamos em nossos cursos e seminários, uma boa propaganda deve ser ao mesmo tempo simples e impactante. A simplicidade reflete-se diretamente na facilidade com que a mensagem é transmitida (propagada entre os integrantes do público-alvo) e o seu poder de impacto traduz-se em uma maior capacidade de persuasão, ao ativar gatilhos emocionais que levem à consecução de determinados comportamentos, que sejam do interesse do seu emissor.

 

Ao longo da História, existem diversos exemplos de propagandas que atenderam, com excepcional maestria, a esses dois requisitos.

 

Hoje trataremos especificamente de uma delas: o uso da Quinta Sinfonia de Beethoven como propaganda da resistência dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.

 

A associação inicial surgiu com a letra "V", pelo fato de que o "V da Vitória" configurava-se em um símbolo graficamente simples, podendo ser facilmente reproduzido em diferentes situações. De fato, além de ser a letra inicial da palavra "vitória", tanto no idioma inglês quanto na língua francesa, o "V" ainda se assemelhava visualmente a uma alça de mira, dispositivo que permite ao soldado realizar a pontaria e direcionar os disparos do seu armamento.

 

A facilidade de sua representação gráfica (o símbolo constituia-se em apenas duas linhas diagonais, uma descendente e outra ascendente) fez com que a imagem do "V da Vitória" passasse a figurar em vários locais: muros, paredes, estradas, equipamentos, uniformes e, potencialmente, em qualquer outro lugar em que pudesse ser registrado - e visualizado - por combatentes e não-combatentes das Forças Aliadas. 

 

Da mesma forma, o gesto em que um "V" era formado erguendo-se simultaneamente os dedos indicador e médio de uma das mãos, também passou a ser utilizado como emblema da resistência entre os Aliados.

 

Contudo, as associações não pararam por aí...

 

Nas transmissões telegráficas, que eram efetuadas em código morse, a letra "V" era indicada com três pontos e um traço [ ... _ ], os quais, sonoramente, correspondiam a três toques curtos e um prolongado, ou seja, reproduziam exatamente o mesmo padrão rítmico adotado na abertura da Quinta Sinfonia de Beethoven. 

 

Não demoraria muito, portanto, para que o "V da Vitória" também fosse associado aos acordes iniciais da Quinta Sinfonia do ilustre maestro alemão, os quais foram utilizados, inclusive, para indicar o início das transmissões realizadas pela Rádio BBC. 

 

A ocorrência desta nova associação, que apenas por sua natureza sonora já seria praticamente inevitável, foi reforçada ainda por um outro aspecto... Composta entre 1804 e 1808, a Sinfonia do Destino, como ficou conhecida, marcou a superação de uma das piores fases da vida de Beethoven, que após atravessar momentos de profunda agonia e depressão, decidiu seguir com sua carreira e continuar a compor, mesmo com o aparecimento de uma surdez progressiva que o acompanharia até o fim de seus dias. E essa mensagem, de superação das adversidades e fortalecimento da esperança, casava como uma luva com os objetivos da propaganda veiculada pelos Aliados.

 

E foi assim que a Quinta Sinfonia, que, diga-se de passagem, em algarismos romanos também se representa com um "V" (semelhante ao "V da Vitória"), ingressou definitivamente para o arsenal da propaganda utilizada pela resistência durante a Segunda Guerra Mundial.