Entrevista Investigativa:

duas habilidades essenciais ao bom entrevistador.

Maurício Viegas Pinto
Presidente do IBRAV

09 JAN/2018

 

Os casos recentes envolvendo ocorrências de violência sexual em vários estados do Brasil mostram-nos que, na maior parte das vezes, os investigadores não dispõem de provas materiais sobre os delitos, de modo que a apuração dos fatos realiza-se quase que exclusivamente a partir da oitiva de vítimas e testemunhas.

Neste cenário, ressalta-se a importância da entrevista investigativa, entendendo-se como tal o conjunto de técnicas que permitem auxiliar o declarante no processo de recuperação de suas memórias, de forma a aumentar a quantidade e a qualidade de dados fornecidos, contribuindo para que os investigadores possam obter o relato mais completo e acurado possível, na inquirição de vítimas, testemunhas, colaboradores e informantes. 

 

Todavia, embora seja fundamental para a elucidação de delitos como o citado no exemplo acima, a verdade é que boa parte dos investigadores não está devidamente capacitada para a realização de uma entrevista investigativa. Nas Academias de Polícia, por exemplo, o tempo destinado ao treinamento em entrevista é ínfimo, e efetivamente não há nenhum tipo de protocolo de entrevista que seja adotado uniformemente em âmbito nacional.

 

Assim, na maioria dos casos, investigadores recorrem unicamente à sua experiência pessoal e profissional para planejar e realizar entrevistas de natureza investigativa.

 

Esse quadro torna-se ainda mais grave ao se considerar a escassa publicação de livros especializados em nosso país. De fato, pode-se dizer que não há nenhuma obra que aborde essa matéria de forma profunda e abrangente, e os poucos manuais que circulam pela internet carecem do necessário rigor científico.

 

Uma das principais – e mais danosas – consequências desse despreparo é a contaminação da entrevista, seja em decorrência de perguntas mal formuladas pelo investigador, ou até mesmo de outras circunstâncias que não foram contempladas por ele, como, por exemplo, a possibilidade de contato entre diferentes testemunhas antes de uma audiência judicial. Em virtude disso, a primeira habilidade que destacaremos como essencial ao bom entrevistador é a capacidade de evitar que as declarações prestadas pelo entrevistado sejam contaminadas.

 

Ora, se por um lado nos esforçamos para preservar o local onde ocorreu um crime, no intuito de que os indícios objetivos ali presentes não sejam adulterados; por outro, deveríamos também nos empenhar para que as memórias das testemunhas – onde residem os indícios subjetivos do delito – não sejam igualmente contaminadas.   

 

Assim sendo, e mais uma vez recorrendo ao exemplo citado no início deste artigo, podemos afirmar que a veiculação de depoimentos em cadeia nacional, relatando na íntegra e em detalhes a forma como as agressões sexuais aconteceram, poderia ser comparada ao ato de permitir que centenas de pessoas “sem luvas e sem proteção para os pés” adentrassem a cena do crime, antes mesmo que a perícia fosse realizada.

 

Contudo, para realizar uma boa entrevista investigativa não basta apenas evitar que ocorra a contaminação das declarações. O investigador deve dispor também de outra habilidade considerada essencial: a escuta ativa.

 

O bom entrevistador deve procurar “construir pontes e não levantar barreiras” entre ele e a testemunha. Ou seja, ele deve se conectar ao declarante, sem pressioná-lo, mas deixando-o à vontade para relatar tudo o que sabe sobre o assunto. 

 

A dificuldade em se conectar com o entrevistado resulta em muitos casos de um excesso de protagonismo por parte do investigador. O desejo incontido de querer mostrar tudo o que sabe (ou pensa saber) sobre o fato que esteja em apuração, leva o entrevistador iniciante a não dar a devida atenção ao relato feito pela testemunha. Um dos principais sinais de que o entrevistador foi “engolido” por essa armadilha é a constante – e extremamente irritante – interrupção das declarações.

 

Nada é mais irritante para uma testemunha que efetivamente deseja colaborar para a elucidação de um fato do que ser constantemente impedida de concluir os seus pensamentos.  Assim, o bom entrevistador deve se controlar e evitar ao máximo interromper o relato. Se admitimos que foi a testemunha, e não o entrevistador, quem presenciou os fatos, devemos concordar também que é ela, e não o entrevistador, quem deve assumir o papel de destaque em uma entrevista. Desse modo, não é difícil concluir que o melhor entrevistador é aquele que menos fala em uma entrevista.

 

Obviamente, durante o relato de uma testemunha, vários questionamentos passam pela cabeça do investigador.  Alguns pontos podem lhe parecer obscuros, ambíguos ou até mesmo contraditórios. Ele deve registrar adequadamente esses pontos para esclarecê-los oportunamente, porém – insisto – sem interromper o relato feito pela testemunha.

 

Ao contrário, a postura recomendada ao bom entrevistador é a de utilizar recursos de comunicação para estimular a testemunha a continuar falando sobre o assunto.

 

Desse modo, ao mesmo tempo em que acompanha atentamente tudo o que a testemunha diz, o entrevistador sinaliza assentindo com a sua cabeça em um gesto afirmativo, sempre que ela conclua algum pensamento ou explicação. Isso transmitirá ao declarante a sensação de que as suas palavras estão sendo efetivamente escutadas e levadas em consideração.

 

Eventualmente, caso a testemunha interrompa por sua própria conta o relato, o entrevistador poderá utilizar algum tipo de “gancho” de comunicação (por exemplo: e o que aconteceu depois disso?) para incentivá-la a continuar falando sobre o assunto. Caso ela insista em permanecer em silêncio, o entrevistador deve estar preparado para enfrentar esse momento de forma adequada, sem ceder à tentação de voltar a falar antes da testemunha. Pequenas pausas podem ser necessárias para que o declarante possa se concentrar e recuperar as memórias relacionadas aos fatos que estejam sendo narrados, e é muito importante que o entrevistador respeite esses momentos.

 

Em resumo, essas são duas habilidades que podem ser consideradas essenciais ao bom entrevistador: a capacidade de evitar que as declarações sejam contaminadas e a escuta ativa. Aplicando-as, o entrevistador terá sempre maiores condições de obter um relato extenso e correto.