Como não fazer uma Análise de Veracidade

Maurício Viegas Pinto
Presidente do IBRAV

20 MAI/2020

 

Há muitos anos - acredito que há mais de uma década - tive contato com um texto que, até hoje, considero como um dos melhores que li sobre a atividade de Inteligência. Chama-se O que não é a Atividade de Inteligência, de autoria do Cel EB Romeu Antonio Ferreira. De certa maneira inspirado por esse texto, e em face da grande repercussão que o assunto vem recebendo nos últimos dias, decidi escrever algumas linhas sobre Como não fazer uma Análise de Veracidade, Técnica Operacional de Inteligência à qual me dedico com afinco e sobre a qual passarei a tratar a seguir.

 

Inicialmente, devo dizer que não tenho a menor pretensão de esgotar o assunto em um texto formatado para difusão em mídias sociais. Assim, não entrarei aqui em discussões doutrinárias sobre o objeto e a abrangência da Análise de Veracidade. Aos que desejem maior aprofundamento nesse aspecto, recomendo outro texto, também de minha autoria, disponível para consulta no website do Instituto Brasileiro de Análise de Veracidade. Dito isso, passemos então aos três principais erros que levam um profissional a não fazer uma Análise de Veracidade:

 

1º)  Confundir Análise de Veracidade com Detecção de Mentiras

 

Deve-se ter em mente que Análise de Veracidade não se confunde com Detecção de Mentiras. Por se tratar de uma Técnica Operacional de Inteligência, a primeira destina-se à obtenção de dados negados, aos quais serão atribuídos diferentes graus de credibilidade, e poderão ou não compor um conhecimento de Inteligência. A expressão Detecção de Mentiras, por outro lado, evoca uma condição especial de poder, na qual um indivíduo se diz capaz de determinar, a qualquer momento e em qualquer circunstância, quando alguém mente ou diz a verdade. Embora não seja necessário grande esforço cognitivo para perceber a diferença entre ambas, devo admitir que em algumas academias e centros de formação essa nomenclatura inadequada, infelizmente, ainda é muito usual.

Por óbvio, a expressão Detecção de Mentiras possui um apelo comercial muito mais forte que Análise de Veracidade, o que faz com que aquela seja muito mais "vendável" que esta. Sem sombra de dúvida, um livro com o título "Torne-se um detector de mentiras em 30 minutos" terá uma procura infinitamente superior a outro, cujo título seja "Metodologias para a Análise da Veracidade". Com efeito, o primeiro erro que leva um profissional a não fazer uma Análise de Veracidade consiste em designar a técnica de forma inapropriada. Assim, da mesma maneira que vigilância não se confunde com campana e que entrevista não significa a mesma coisa que interrogatório, análise de veracidade também não é sinônimo de detecção de mentiras.

Feita essa importante ressalva, vejamos outros pontos que levam os profissionais a não realizarem uma Análise de Veracidade.

2º) Não traçar a linha de base

O segundo aspecto que eu gostaria de destacar, após o uso inapropriado do nome, é a ausência absoluta de uma linha de base. 

Os chamados especialistas em Detecção de Mentiras geralmente tecem seus comentários sobre um determinado personagem (não chamarei esse personagem de "alvo", termo comum aos profissionais de Inteligência, pois, em meu entendimento, alvos são sempre revestidos pelo manto protetor do sigilo). Pois bem, voltando ao personagem trabalhado pelos especialistas em Detecção de Mentiras, eles não são analisados à luz de uma linha de base que permita identificar alterações em um suposto comportamento padrão (seja no âmbito verbal ou não-verbal). E esse é um fator diferenciador entre se fazer ou não se fazer uma Análise de Veracidade.

 

De fato, por se tratar de uma Técnica Operacional de Inteligência, como referenciado anteriormente, a Análise de Veracidade deveria ser capaz de contar com outros elementos, obtidos mediante procedimentos de coleta ou de busca, que permitam confrontar o material analisado com outros, nos quais o personagem (o alvo das Operações de Inteligência) apareça em situações de baixa e de alta ativação emocional.


3º) Acreditar em um Nariz de Pinóquio

Por fim, gostaria de citar um terceiro aspecto que, embora tenha ficado por último, talvez seja o principal responsável por fazer com que alguns profissionais não realizem uma Análise de Veracidade. Refiro-me aqui ao famigerado "sinal da mentira". Influenciados pelo mito do Nariz de Pinóquio (a falsa ideia de que existe um sinal único e universal que indique de forma irrefutável que uma pessoa esteja mentindo), os especialistas em Detecção de Mentiras buscam de forma fervorosa por uma mão levada à face (se a mão se posiciona sobre a boca então, eles entram em estado de êxtase), braços que se cruzem, olhos que se fechem e, evidentemente, o maior e melhor indicador de todos os tempos: o famoso olhar para cima e para a direita, ou para cima e para a esquerda, a depender se os seus personagens são "normais" ou "invertidos"...

 

Embora o propósito desse texto não seja ensinar como se fazer uma Análise de Veracidade, mas sim apontar alguns erros que levam a não fazer uma Análise de Veracidade, algo deve ser dito a esse respeito, em negrito e em caixa alta: NÃO EXISTE, REPITO, NÃO EXISTE, NENHUM SINAL ÚNICO, VERBAL OU NÃO VERBAL, QUE SEJA ABSOLUTAMENTE CATEGÓRICO QUANTO À OCORRÊNCIA DE UMA MENTIRA.

Profissionais de Inteligência, aqueles que pretendem enveredar pelo caminho da Análise de Veracidade, devem fugir a todo custo do canto sedutor da sereia que tentará arrastá-los para esse labirinto fatal. Seguir por essa trilha significa sepultar de vez toda e qualquer expectativa de se fazer uma autêntica Análise de Veracidade.

Em resumo, esses são os três principais erros que fazem com que profissionais não realizem uma Análise de Veracidade: confundir a técnica com detecção de mentiras, não traçar a linha de base e acreditar em um Nariz de Pinóquio. 

Registre-se, por fim, a existência de diversos estudos, desenvolvidos em conceituadas e respeitadas universidades, que abordam a temática da Análise da Veracidade das Declarações. No Instituto Brasileiro de Análise de Veracidade temos como prioridade o caráter científico da pesquisa, que sempre deve estar respaldada pelo devido rigor metodológico. O conhecimento e a aplicação desses estudos permitem ao profissional de Inteligência entender não apenas os mecanismos associados à criação de mentiras, mas também, e principalmente, as características dos relatos verdadeiros.

 

Sim... Eis aqui um pequeno segredo que agora lhes revelo: existem características que aparecem com maior frequência em relatos verdadeiros do que nas falsas declarações. Então, com base na identificação dessas características, pode-se fazer inferências sobre a maior ou menor credibilidade de um relato.

 

A essa altura, você deve estar se perguntando: “Mas então como os especialistas da TV sempre fazem as suas análises detectando os sinais da mentira?”. E a resposta mais sincera seria a seguinte: "Infelizmente, em muitas situações, embora você não tenha percebido, esses especialistas acabaram mentindo para você!".